Wednesday, July 06, 2005

Hoje é quarta

Moços e moças, eu já não vinha deixar os meus pensamentos vai para quase três meses. O meu Albano deixou-me pela amásia e eu fiquei muito triste. Tive que ir servir para casa dos Tavares Correia e comecei a vender pastéis de feijão e rissóis para fora. A minha sogra tinha-me ensinado a fazer quando foi para fazer os comes para a minha boda com o Albano.
A estória dele com a moça da vila foi muito triste para mim, até porque quando o fui buscar a casa dela ele disse que não queria vir. Eu agarrei nos cabelos da moça e trouxe-a até à praça à lambada. Coitada, o Sr. Padre disse que fiz muito mal mas a Céu foi comigo e foi ela que me disse que agora nenhum homem a quer. Por isso é bem feita que com o meu homem ninguém se mete!
Hoje tive um dia muito feliz. O Albano quis refustedo logo de manhã. Depois foi para a obra da vila e eu fiquei aqui com os meus pensamentos a ouvir o moço da rádio que é muito bom e gosta muito do meu blog. Gosta tanto que até pôs no blog dele o último texto que eu tinha aqui postado já depois da Páscoa. Acho que os moços que costumam lá ir também gostaram, tanto que nem deixaram lá mensagens porque se distrairam a ler este meu sítio de ideias e lembraduras. E por isso agora vou deixar aqui uma coisa que a Céu me ensinou a pôr, que se chama comments, para vocês poderem deixar também os vossos pensamentos e algumas receitas se tiverem.
Eu tinha dito ainda não vai muito tempo, que ia deixar aqui os versos que o meu Albano me escreveu quando ainda éramos namorados e íamos lá para o monte da espiga. Aqui fica, é muito bonito. Ele enganou-se no meu nome, mas não faz mal, tinha vindo da tropa há uns dias e eu sei que isso faz mal aos cansaços. O meu primo Joca até ficou com um gotamento cerebral quando lá esteve. Foram assim os versos:
"Sumissa

O teu nome é belo
O teu pai é bom homem também
Quero ter filhos homens
Acho que nos vamos dar bem

Gosto de ti como de laranjas
Tens as melhores coxas da aldeia
Às vezes vejo-te com a tua mãe
Não és nada feia

No baile em Agosto dançámos
É primavera e namoramos
Quando estava na tropa escrevi-te
Uns tempos depois ainda nos gostamos.

Com amor, Albano José da Silva ao Domingo"
Não é um poeta este homem que Deus me escolheu?

Sunday, April 17, 2005

Hoje é domingo

Hoje não tenho a telefonia ligada. Não está a falar aquele moço que deve ser jeitoso, o da antena 3 que se chama Rui Estevão. Ai que o rapaz tem uma voz que até se me arrepia a espinha e passam as dores nas cruzes... Cruzes credo Jesus, não quero pecar em pensamento, é só porque o moço é muito bom locutor, parece dos de antigamente. Podia era passar umas musiquinhas mais de baile.
Hoje a missa foi muito bonita, havia lá uns senhores que cantavam umas músicas numa língua antiga com voz de anjo, quase pareciam senhoras da ópera. A minha mãezinha já sabe que o Albano anda lá com uma moça da vila, mas disse-me para não lhe dizer nada porque senão o homem ainda me sai de casa e ó depois tenho que ir cavar batatas ou servir pra casa dos Tavares Correia.

Sunday, April 10, 2005

Hoje é domingo

Ontem o meu homem chegou a casa com uma bubadeira que não se tinha nas prenas. Tiveram que o trazer o Simões e o Carlitos que o homem não podia com a mota. Não me deu refustedo nem tareia, começo a ficar triste, acho que ele já não gosta de mim. O Padre Carlos disse para eu ficar quietinha no meu canto que ele depois esquece essas amásias e volta a procurar-me. Até se me limpa o espírito quando falo com o Senhor Padre, é um santo aquele homem.
Agora o Albano foi pro café com os amigos treinar a sueca porque na semana passada perdeu contra uns moços da carreira e ficou com umas ganas que me deu com as botas de tropa, mesmo tendo eu engraxado as ditas na quinta. Acho que vai ver o jogo para um café na vila a seguir porque lá é que tem uma televisão com os canais todos para ver o benfica. Eu sou do sportingue, mas ele não sabe porque senão morria de desgosto, e quando ele está desgostoso ninguém se chegue!

Saturday, April 09, 2005

Hoje é sábado

A Céu veio-me contar que viram o meu Albano na vila agarrado a outra! Ai que eu não ando a satisfazer o meu homem, o Sr. Padre bem que me dizia que tem que se lhes dar prazer senão eles procuram outras. Vou esperar que ele chegue a casa e vamos pro refustedo.

Wednesday, April 06, 2005

Hoje é quarta

Já tinha muitas saudades de vir aqui deixar os meus pensamentos convosvo que sei que me leem. Está calor cá na aldeia, muito calor, até mais parece que é verão. O meu homem já lá foi pra obra da vila, estão a construir a casa dum dótor, parece que é muito rico. Mas cá pra mim é um forreta carrancudo. Então a casa não vai ter telhas, vai ser toda lisa tipo um quadrado e depois tem assim umas coisas esquisitas que eu não sei bem o que são. As portas são lisinhas, lisinhas, lisinhas! Nem envernizadas, nem com dourados... efim, para poupar que poupem dentro de casa!Agora andar a mostrar que não se tem - isso nem pensar! É que seria uma má lingua se fosse na aldeia. Ainda dizem que foi um Sr. Arquitecto que fez a tal casa, até há uma mesa onde ela está em ponto piqueno! Será que o Albano me está a mentir? Nunca vi coisa assim! Ainda bem que a nossa casa foi feita pelo meu homem e tem aquelas colunas na entrada. É que assim até parece a casa do presidente da américa.
Mas a casa mais linda da aldeia é a da Urbina. Caramba que ela e o homem dela desde que foram pra Suiça ganharam tanto dinheiro que fizeram a casa maior que o largo tem. É tão linda, têm tanto gosto. Parece um castelo aquela casa, tem umas persianas que reluzem todo o ano, telhado preto (eu também queria mas o Albano não deixou) e os azulejos das paredes... ai aqueles azulejos com umas meninas numas fontes e uns pássaros daqueles que aparecem nas florestas da selva... Até tem uma torre o raio da casa! O quintal é que podia ser mais bonito, mas eles estão na Suiça e não têm quem lhes cuide das pereiras e dos figos.
A casa maior é da família Tavares Correia, são todos dótores e ingenheiros. Mas a casa é tão velha! Dizem que tem para aí uns duzentos anos! Eles são tão ricos que bem podiam deitar essa abaixo e fazer uma como deve de ser. Mas não querem, só fazem obras de restauro, dizem eles. Tem um terreno que mais parece uma quinta, com cavalos e tudo. Como o terreno vai até ao rio, têm lá uns barcos para os netos e umas motas que andam em cima de água. Os netos são todos do Porto e de Lisboa e só vêm cá no Verão e é uma alegria na aldeia ver moços e moças tão jeitosos que passeiam de mota com 4 rodas pelo monte. Elas são lindíssimas, assim mesmo raparigas da cidade, com uns cabelos compridos. Só não percebo porque não casam. Dizem que ainda estão na Universidade a acabar os cursos para ser dótoras e só ó depois é que pensam nisso. Mas já trazem os namorados lá para casa! É uma vergonha na aldeia ver aquela pouca vergonha. A Céu diz que não tem mal nenhum porque lhe disse a Olga, que andou lá a servir, que ficam em quartos separados à noite. Mas a mim parece mal e o meu homem diz que não quer que eu tenha cá conversas com essa gente das modernices.
Bem, o meu homem está no café da vila com o patrão, e eu vou mas é ver se durmo porque se ele me apanha acordada dá-me uma tareia. Amanhã venho cá deixar mais um post. Não, amanhã não dá porque é feira na vila e tenho que ir comprar uns cestos para a apanha da fruta que já está quase a chegar o Verão. Depois vou ao dótor para ele me ver as cruzes que isto de estar sempre a carregar com as batatas não me anda a fazer bem.

Monday, February 28, 2005

Hoje é segunda

Agora não posso pôr cá mais postes porque o dinheiro tá-se a acabar. A obra na vila só começa ó depois da Páscoa e não podemos gastar em internet senão não há para o cabrito. Já disse ao meu Albano para deixar de fumar mas ele diz que só com o seu cigarrinho é que tem sorte à lerpa e que ainda há-de ganhar muito e eu nem vou ver nenhum se não me calo. Fiquei triste com ele porque ele anda a prometer que me leva a Zamora para eu ver semáforos que nunca vi e para isso precisamos de ir com uns dinheiros senão não podemos comprar camarão e presuntos como a tia Dulce.
Depois da Páscoa volto para contar os meus pensamentos. Santa Páscoa.

Sunday, February 27, 2005

Hoje é domingo

A Céu anda a ver se me convence a ir à vila ao cinema ver aquele filme novo da que escreve diários e é gorda e anda com dois que se batem. Acho que se chama diário de Brígida Jones. Eu bem queria, mas o Albano não me ia deixar ir só com a Céu. Ela é boa rapariga, mas tem umas modernices que eu cá não me cheira. Ainda por cima o filme tem umas coisas que não posso ver senão o Sr. Padre não me deixa comungar nunca mais! E não posso mentir.